sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Troca ou revisão do estaiamento de um veleiro - quatro aulas do "Imperador Augusto"






- Como já lhes disse, estou morando a bordo do meu vigésimo sexto veleiro na enseada de Jurujuba, baía de Guanabara, Niterói.

- Curiosamente só naveguei pouco mais de uma milha a bordo do "YB", que só é meu provisoriamente.

- Porque, eu que estou seco por velejar ainda não icei as velas desse acolhedor Atoll 23?

- Porque antes preciso resolver três problemas importantes.

- Quais?


- Os seguintes:

1 - Revisar o estaiamento.

2 - Revisão do motor.


3 - Providenciar um bote de apoio.

- Bem, o caso do motor já foi resolvido graças a uma  permuta com a Gallboats, vide publicidade no alto da coluna da direita.

- Meu anexo será o "Alegria II" que eu mesmo desenhei e construí.

- Quanto ao estaiamento recebi uma ajuda teórica da galera do Altamar* e também de um certo-velejador-vizinho* que preferiu não se identificar.

- Eu o chamo de "Imperador Augusto".

- Se por acaso algum de vocês também estiver inseguro com relação à resistência do mastro, estais, brandais, fuzis e outras ferragens do veleiro de vocês, antes de partir pra ação leiam as sábias sugestões do "Imperador Augusto".

- Verdadeiras aulas sobre este importante assunto, que não poderia deixar de partilhar com vocês.

Fernando Costa


AULA Nº 1

A reforma de estaiamento por "menor custo possível" tem risco difícil avaliar e perceber. Praticamente só o dono e quem vai correr o risco na água pode decidir. Depende muito de onde e como vai usar o barco, claro, mas até da personalidade do velejador. Por isto evitamos dar muito palpite e os técnicos sempre recomendam trocar tudo. Apesar dos técnicos nem sempre dimensionarem para o uso e sim repetir o que saiu de fábrica. 

Se trocou mesmo há cinco anos, a custo mínimo seria, como comentei desmontar e verificar/trocar pinos, chapas e terminais com trincas. Em geral, e como deve saber, o cabo raramente rompe fora dos terminais. Há o teste com líquido penetrante, que pode procurar, para verificar todas as partes qto às trincas. Não funciona para degradação interna do aço inox, que na região costuma acontecer em mais de dez anos sob tensão.


AULA Nº 2


O estaiamento do seu barco pode estar precisando mais de limpeza, lubrificação e troca de pinos do que alguma reforma maior. O barco todo precisa de limpeza para ser possível avaliar o que precisa mesmo.

Em caso de necessidade, para substituir esticadores inox de custo alto não deve usar doações de peças usadas, por exemplo. Se não forem de fabricante ou comprovadamente novas, as peças em geral estão após fim de vida útil. 


Em caso de dúvida com esticador, por exemplo, vc pode colocar um laço de cabo de alta capacidade, até o antigo de kevlar, em volta do esticador. Se este quebrar, o laço segura o estai. 

Com o laço, pode manter os esticadores que estiverem no lugar e sem nada sério óbvio. Para algum esticador com trincas ou já quebrando partes, vc pode com vantagem usar amarração ainda em cabo de alta capacidade no lugar do esticador. O barco especial que era do Grael é montado assim, por exemplo. 

Colocando uma manilha no esticador e outra no fuzil, para "adoçar" o lugar do cabo, fazer algumas voltas entre manilha, apertar a cada volta esticando tudo e amarrar. Amarrar estes cabos é difícil e vale sugestão acima. Tem cabos destes que escorregam muito. Mas, alguns são mais duros e ficam firmes até com nossa amarração. Uma capa de couro ou algo assim protege o cabo do sol.

Um metro de um cabo fino destes, tipo 300 ou 500kg de resistência, talvez seja suficiente por local e custe 1/10 do preço de um esticador. Para barco de cruzeiro é mais que suficiente, considerando que os de regata de ponta já usam o mesmo processo. No caso dos catamarã e dos barcos tipo do Grael, até pessoas especialistas vêm do exterior para fazer a amarração. No nosso caso, não precisamos tanto.

O segundo estai de popa de meu barco é montado assim, apesar de ter esticador. A amarração no caso foi usada para isolar eletricamente o estai para ser usado como antena de rádio. Você poderá ver como fica. 


AULA Nº 3


Como eu comentei, na msg repetida abaixo eu tinha informado sobre o teste com líquido penetrante. Ver palavras chave e um dos sites, abaixo. O problema seria arrumar o teste em pequena quantidade. Talvez algum leitor de seu site ajude.

TESTE COM LÍQUIDO PENETRANTE

http://www.infosolda.com.br/biblioteca-digital/livros-senai/ensaios-nao-destrutivos-e-mecanicos/217-ensaio-nao-destrutivo-liquidos-penetrantes.html

Antes de testar cada peça precisará desenhar tudo em detalhes, mesmo a mão livre e em rascunho para organizar e não deixar nada de fora. Incluir os lugares onde as peças são aparafusadas como anteparas, convés, mastro e retranca. Depois limpar tudo mesmo, antes de desmontar e se desmontar. Se quer segurança no barco a primeira providência é limpar tudo de ponta a ponta. O que esconde trinca e falha em geral é sujeira. 

Você estaria procurando trincas marcadas, por exemplo, com ferrugem ou oxidação de cor diferente do que foi limpo por cima, dentes em quinas, casca de ferrugem, peça que entortou no lugar e a amassou a madeira ou a fibra, trincados ou marcas de escorregamento na madeira ou na fibra ou no alumínio, oxido branco no alumínio, ferrugem na entrada do cabo no terminal, perda de fio em cabo (mais sério), etc. Apertar os esticadores um a um já ajuda. Vai por aí. 

Só desmontar depois de procurar falhas com tudo montado e esticado. Antes ou depois de desmontar poderia até limpar com ácido fosfórico (diluir 50% > cuidado com vapor em velas ou tecidos) ou mesmo só suco de limão (cuidado com as mãos no sol). Em geral, o primeiro tira ferrugem e o segundo tira o resto da oxidação. Já vai aparecer ou não muita coisa. 

Quanto à amenidades técnicas, baixo está um site que ainda tem artigos do engenheiro de aviação que fez uma mudança boa na área de velas por ter sido o primeiro que escreveu artigos acessíveis somando aerodinâmica sofisticada como veleiros comuns. Foi no início da década de 1970. O personagem das velas, Arnaldo, conhece o autor e se vc mencionar este engenheiro, Gentry, ele vai ficar impressionado com seus conhecimentos. No Brasil todo deve haver uma meia dúzia de pessoas que leram os artigos. Servem para ter ideia geral do que são esforços e forças nas velas e estaiamento. Há artigos mais fáceis de outros. 

http://www.gentrysailing.com/memorial.html
http://arvelgentry.jimdo.com/articles/
http://arvelgentry.jimdo.com/free-software/


AULA Nº 4


Além de eu já estar precisando diminuir meu número de atividades sistemáticas e não estar no momento podendo o ajudar diretamente com o estaiamento, você pode considerar muito razoável a estória de que nem se um sujeito profissional trocar tudo não será possível ter a confiança que deseja. O procedimento abaixo é mais barato e muito mais seguro e interessante. 

Não tenho como saber o que você já sabe sobre engenharia de veleiros. Abaixo está um exemplo de conhecimento básico sobre a força lateral, que "vira" o barco e aparece em toda posição menos popa rasa (vento direto de popa). Seria a força lateral na vela, que aparece para ter a força que empurra para a frente.

É a mesma força que arranca o mastro ao capotar. Só que seria causada dentro da água por vela travada, muito mas sério em aparência, mas igual no valor. A força lateral sempre é a que vai superar o equilíbrio que a quilha e o peso do barco vão criar ao contrário. Se a força do vento ou da água for maior que a força de equilíbrio do peso e quilha, o barco capota ou volta à superfície. Lembrou do conceito?

Logo, quem define a força em cada estai é no fundo a reação da quilha nos veleiros comuns de lastro. Pode ser o vento que for, se sua força superar a de equilíbrio o barco vira. Se não superar, os estais transferem a força do vento para o equilíbrio da quilha. O estai fica no meio da briga. Quanto mais força lateral do vento, mais inclinado fica o barco. Até que a força do vento fica maior do que a do equilíbrio da quilha e o barco começa a virar. Este ponto é o de esforço máximo do estai. Para cada ângulo de inclinação há uma força no estai. É isto que as curvas abaixo indicam. 

A parte prática é - ver o gráfico - que a força máxima no estai em geral está por volta do ângulo de inclinação de 60 graus. Imagine o barco inclinado a 60 graus e vai ver que a água já estará entrando no cockpit. Se o projeto original do barco tiver sido feito direito, o estai deve aguentar esta força máxima com fator de segurança de 3 a 4 quando estava novo. Seria como se a força máxima for calculada para 60 graus de inclinação em 300kilos força, então o cabo, terminais, pinos e esticadores seriam para arrebentar com uns 1000 a 1200 kg. O Atoll23 deve ser para menos do que isto. Talvez metade.

Digamos que o estaiamento de seu barco tenha sido realmente trocado há cinco anos e que a perda de vida natural seria de risco de romper por velhice entre 10 e 20 anos. É loteria. Podemos assumir que sem trincas ou quebras, se colocarmos metade da força que o projeto considerou, e se olhar o gráfico abaixo, vamos ver que se não deixar o barco inclinar para mais de 20 a 30 graus você ainda estará com uma boa folga de segurança. 

Até aí, fica fácil. Ninguém anda por aí velejando a mais de 30 graus de inclinação de qq forma. O problema é que o risco de algum item não aguentar a força máxima ficará por conta da margem de segurança - aquela de 3 a 4 do projeto - como reduzida com o envelhecimento. Digamos que para inclinação de 30 graus agora cada estai pegue 150 kg. Vai funcionar apesar da resistência de romper terá caído para metade, digamos uns 600kg. Com 30 graus vc ainda terá um fator de segurança de 3 a 4. Este fator é necessário para envelhecimento e para os trancos das forças dinâmicas não amortecidas. 

Mas, se o barco pegar uma rajada de lado e chegar aos 60 graus, a força no estai seria novamente de 300kg e a capacidade envelhecida seria de 600kg. O fator de segurança e de dinâmica seria agora de somente 2. Ainda pode aguentar, mas já precisa ser amortecido, por exemplo. Será bom colocar algum amortecedor no tranco. 

Em resumo, a modo mais barato e seguro de "reformar" um estaiamento não é trocar tudo sem perdão. Seria nos passos:

1. Pesquisar a situação de todas as peças procurando trincas e dentes ou oxidação com perda de material (buracos de início de ruptura);
2. Passar a ter mais cuidado com a inclinação do barco, usando um indicador para limite de 20 a 30 graus ou olhando o horizonte;
3. Colocar laços de cabos sintéticos de alta capacidade em volta de cada esticador e terminais + pinos;

e, esta é a parte nova:

4. Deixar os cabos sintéticos em volta do esticador pegando a carga normal e de impacto. Deixar o esticador um pouco mais frouxo do que o laço de cabo sintético. Se o cabo romper o esticador pega a carga. Se o cabo não romper vai esticar um pouco em cada tranco e isto amortece muito o pico de força no cabo de aço do estai. Com este amortecimento, o fator de segurança final do cabo pode ser o menor após envelhecimento. Desde que o cabo não esteja já perdendo fios ou com o terminal muito oxidado a ponto de estar cortado no local. 

Serve para os outros estais, com mais cuidado com o de proa por motivos adicionais de força da vela no meio. Neste caso, o deixar um pouco frouxo ajuda muito. Se o estai fica frouco, o tranco fica maior. Se fica esticado, desperdiça capacidade contra a tensão inútil permanente. 

Ou seja, o modo mais barato e seguro de "renovar" o estaiamento é o conhecendo e sabendo o que pode esperar dele. Só que sem saber desdobrar esta afirmação em ação e atitudes isto seria mais uma conversa fiada de bar de clube. 


OBSERVAÇÕES


Escrevo direto e passam erros de sentido. Só lembro depois de enviar. 

A estória de que nem se um sujeito profissional trocar tudo não será possível ter a confiança que deseja.
fica certo com:

a estória é que, mesmo que um sujeito profissional troque tudo não será possível ter a confiança que deseja.

e  

Serve para os outros estais, com mais cuidado com o de proa por motivos adicionais de força da vela no meio. Neste caso, o deixar um pouco frouxo ajuda muito. Se o estai fica frouco, o tranco fica maior. Se fica esticado, desperdiça capacidade contra a tensão inútil permanente.

Fica direito com:


Serve para os outros estais, com mais cuidado com o de proa por motivos adicionais de força da vela no meio. Neste caso, o deixar um pouco frouxo ajuda muito. Se o estai fica frouxo, o tranco dinâmico ficaria maior pelo percurso quando a vela mudar de lado, mas a própria vela o amortece. E, a força constante fica bem menor pela "barriga" no estai. Se fica esticado, desperdiça capacidade contra a tensão inútil permanente.

Fernando Costa

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