quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Vendée Globe - Armel x Alex, com tudo em cima e pé embaixo em pleno oceano austral


(


- Muito agradável, divertido e excitante (no sentido mais amplo do termo) isso de se narrar a mais ousada das regatas e ao mesmo tempo difícil, muito difícil amigos leitores.

- A dificuldade consiste em escolher um 

tema sobre o qual discursar.

- É tudo tão interessante, tão curioso, tão emocionante, tão apaixonante nesta hercúlea prova, dublê de aventura humana, que não sei nunca qual assunto escolher.

- Alguém me ajuda?


1 - Gostaria de comentar a ultrapassagem da "toda-negra-lebre-anglo-saxônica" sobre o "chacal-gaulês". (Mas isso todos os jornalistas que acompanham a regata já devem ter feito, exceto eu.)


2 - Mas também gostaria de lamentar a má sorte dos quatro super-marujos que foram obrigados a abandonar a raia para nossa tristeza: Vincent Riou, Morgan Lagravière, Tanguy de Lamotte e Bertrand de Broc.


3 - Mas também gostaria de falar sobre a ótima ideia que alguém teve (quem terá sido meu Deus?) (queria apertar a mão dessa pessoa se for homem ou beijá-la se for mulher) de publicar uma citação de um livro que fale de MAR e navegações todo dia, no site oficial da regata.


4 - Mas também gostaria de citar o que eu mesmo escrevi nos meus diários anteriores no dia de hoje, primeiro de dezembro, sobre a planetária Vendée Globe em suas sexta (2008/2009) e sétima edição (2012/13).


5 - Queria falar igualmente sobre um vídeo explicando o funcionamento do foil*, apetrecho que só os veleiros mais novos e sofisticados da frota possuem atualmente.


6 - Queria comentar o ótimo post da Solène, empregada da Sodebo, patrocinadora oficial da Regata.


- Bem, como o tempo é um recurso limitado, escasso, sempre minguante e jamais renovável, serei obrigado a escolher um só.


- Madame, sorte, a-mestra-de-cerimônias-deste-mundo, escolheu o primeiro tópico.


- Falemos pois do que todo mundo já falou, mas de uma maneira nova, que de nada adianta a gente repetir o que os outros já disseram "ipsi litteris".


- Com relação a esse terrível duelo entre dois grandes velejadores, cada qual representando uma nação historicamente rival, França e Inglaterra, o que mais me interessa são as imagens, pra mim ainda inéditas, que foram produzidas ontem de bordo de um certo helicóptero da marinha francesa...


- Meu reino, por um punhado de belas fotografias!

- Mas onde será que estão essas benditas imagens?

- Alguém sabe?


- Ei, encontrei!


-  Não são fotos, mas imagens em movimento, sob a forma de um incrível vídeo! 


- Estão na página facebook da regata!


- E também no twitter!


- Não deixem de vê-las, que são realmente fabulosas e dão uma clara ideia da coragem desses marujos solitários, que ousam navegar com tudo em cima e pé embaixo em pleno oceano astral, debaixo de uma violenta depressão.


- Haja cu... coragem!


- Ia escrevendo "culhão"... 


- Perdão!


- Não sei se o colega velejador concorda, mas o Alex Thomson foi bem mais ousado que o Armel Le Cléac'h no citado vídeo.


- Concorda?


- Sabe o que eu faria, se fosse o gênio da lâmpada?


- Concertaria o foil avariado do Hugo Boss, agora mesmo.


- Ele merece, não?


- Última pergunta.


- Qual trilha sonora você escolheria para o referido vídeo?


- Eu?


- Devolveu-me a pergunta?

- Tudo bem.


- Que tal as Bachianas Brasileiras nº 3 do magnífico Villa-Lobos?


- Qual movimento?


- O primeiro é lógico!



- Encontrei duas novas versões mais longas do mesmo vídeo no Youtube. 

- Esta aqui mostrando o veleiro do Alex Thomson e esta outra aqui mostrando o do Armel Le Cléac'h.


Fernando Costa 


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Não sei se vocês ainda se lembram, mas há exatos quatro anos atrás eu publiquei o seguinte post neste blog:

Recorde de singradura batido 5 vezes consecutivas num mesmo dia !!! - Diário da Vendée Globe  - 21º dia - 01/12/2012



Jean-Pierre-Dick, o marujo-voador, acaba de bater seu próprio recorde de singradura a uma média de 20,9 nós. - Les Sables d'Olonne - novembre de 2012 - foto de Fernando Costa



Incrível, fantástico, extraordinário, amigos, mas Jean-Pierre Dick acaba de bater seu próprio recorde de singradura. Recorde este estabelecido há poucas horas atrás. Desta feita este novíssimo Mercúrio percorreu nada menos que 502,53 milhas náuticas em 24 horas a uma média de 20,9 nós. Não sei se o amigo leitor está ligado, mas nas últimas 24 horas este mesmo recorde já foi do Bernard Stamm, do Alex Thomson, do François Gabart e do
próprio Jean-Pierre Dick. 

 

Isso mesmo, foi isso mesmo que eu disse, o antigo recorde de 2003 do Alex Thomson, que estava há dez anos desafiando os velejadores solitários do mundo inteiro, foi batido uma, duas, três, quatro, cinco vezes consecutivas em menos de 24 horas... Pronto, se nada de ainda mais extraordinário acontecer até o fim desta longa MARatona, a sétima edição da Vendée Globe será lembrada pra sempre, como aquela em que o recorde mundial de singradura em 24 horas, foi batido cinco vezes consecutivas em menos de 24 horas. 

 


Tem razão Machado. A realidade pode tudo enquanto que a ficção coitada foi condenada a andar infinitamente em cima de uma linha reta. Conclusão é a ficção que é previsível enquanto que a realidade é e sempre foi desvairada. Aposto a quantia que vocês desejarem como no script do filme "En Solitaire" de Christophe Offenstein, do qual já falamos neste oceânico blog, o recorde de singradura não será batido nem duas vezes consecutivas, quanto mais cinco em menos de vinte e quatro horas. Resumindo. Deu a louca na realidade da Vendée Globe. Depois de um número exagerado de abandonos (sete) antes da passagem pelo cabo Boa Esperança, ocorre um número exagerado de quebra consecutivas de um recorde que estava há dez anos incólume. A realidade amigos é dez vezes mais louca que a mais louca ficção. Ligados? E é por isso que a vida real nunca dá sono e os melhores livros de ficção sim.








CURIOSIDADE 1 – O homem que não matou o menino...

O outro dia o Yann Eliès disse durante uma vacation radio o que eu havia pensado sem nada dizer a vocês. Podem crer. Mas na falta da Samantha Davies, temos Alessandro de Benedetto, o homem que não matou o menino que vivia e vive dentro dele. Todos dois, Sam e Alessandro têm um "adulto" anão, um "pai" microscópico e uma colossal criança. Impossível não adorá-los. Os outros competidores desta atual edição da Vendée Globe são todos apenas adultos e adultos, vocês sabem como são, não? LoL!






CURIOSIDADE 2 – Vocês sabiam amigos leitores...

que durante a primeira regata de volta ao mudo em solitário, sem escalas e sem assistência da História, houve um velejador inglês, que blefou o tempo todo, informando posições falsas ao longo de uma falsa volta ao mundo... Digam-me, qual seu nome e o que aconteceu com ele mais tarde.


1 - Chegou em primeiro lugar e recebeu a taça da Golden Globe

2 - Teve seu golpe descoberto 3 anos mais tarde e foi obrigado a devolver o prêmio.
3 - Foi descoberto, mas já havia gasto todo o dinheiro do prêmio com jogos e mulheres venais.
4 - Confessou sua fraude à comissão de regata, mas foi perdoado.
5 - Suicidou-se pouco depois de completar o percurso da regata.
6 - Redigiu doiss diários, um falso e um verdadeiro. Redigiu uma mensagem messiânica e suicidou-se antes de chegar de volta à Inglaterra.



CURIOSIDADE 3 - Há quatro anos atrás...

Não sei se vocês ainda se lembram, mas, há quatro anos atrás, foi assim que eu comecei a 21ª página do meu diário do "Everest dos Mares":


"Salve amigas e amigos

Velejar é o segundo maior prazer deste mundo? Concordam?

Quem cala consente!
Adiante.
O maior prazer desta vida todos sabem qual é. Certo?
Quem cala consente.
Adiante!
A Vendée Globe é duas vezes mais moderna e ousada que a Velux 5 Oceans. Sim?
Quem cala consente.
Adiante
A Vendée Globe é tres vezes mais ousada e moderna que a VOR. Todos votam comigo?
Quem cala consente.
Adiante!
Pssiu! Pssiu! Pssiuuu! Baixinho no seu ouvido, amiga leitora. Fico insistindo nesta minha insolente tese de que a Vendée Globe é três vezes mais ousada e moderna que a VOR, na esperança de que alguém a reporte ao Torben Grael, ele goste da idéia e resolva participar da próxima edição da regata. Imaginem que imensa e inédita sensação no Brasil, o grande Torben Grael, partindo em solitário de Sables d'Olonne, em 2012, a bordo do segundo Open 60 brasileiro. Disse o segundo, porque o primeiro, está neste exato momento, singrando os mares do Atlântico Sul a toda brida, nas mãos do Jean-Baptiste Dejeanty. Em último, mas já à frente dos cinco que abandonaram. Ligados?  
Mas como dizia minha avó Balbina, não passemos o carro adiante dos bois."





Não sei se vocês ainda se lembram, mas há exatos oito anos atrás eu publiquei o seguinte post neste blog:


Ciranda infernal  - Diário da Vendée Globe 2008/09 - post 26



O tubarão-martelo esfomeado de vitórias Michel "Foncia" Desjoyeaux veleja, acreditem 
se quiserem, a mais de 30 nós. 
http://www.teamfoncia.com/

http://www.vendeeglobe.org/fr/

Muito bom dia amigas e amigos velejadores!
Não sei se vocês estão plugados, mas está acontecendo algo inacreditável, desde que os líderes da flotilha da incrível, fantástica, extraordinária Vendée Globe, começaram a escalar a imensa montanha russa feita de água salgada das baixas latitudes.
Lá onde o vento sopra sem cessar com

força colossal.
Lá onde as ondas circulam desimpedidas de obstáculos, atingindo alturas inimagináveis.
Lá onde a temperatura da água e do ar são extremas.
Lá onde as frentes frias são frequentes e sempre grávidas de violentas tempestades.
Lá onde todos os fenômenos ligados à MAR que nós conhecemos em mi bemol menor, em nossas baixas latitudes, tornam-se grandiosos, exagerados, monumentais.
A ponto de alguns dizerem que acima dos 40 não há lei.
E acima dos 50 não há deus.
Pois bem, é neste cenário em tudo hiperbólico e grandiloquente, que os dez primeiros colocados da atual e sexta edição da planetária Vendée Globe, inventaram e vem sustentando o que um articulista do site da regata chamou de "ciranda infernal".
Justamente numa fatia do oceano em que a prudência deveria nortear cada decisão do navegante, os líderes da prova resolveram exorbitar.
Em resumo, o pelotão de frente da Vendée Globe endoidou de vez e está sorvendo em grupo, overdoses sobre overdoses da droga mais poderosa do mundo, a adrenalina.
Os caras estão sacrificando o sono pra aumentar suas médias diárias de velocidade, conduzindo seus bólidos alados além de todos os limites da sensatez.
Os caras estão buscando energia na excitação e não mais no repouso.
Os caras estão velejando com tudo em cima no olho do furacão.
No olho não, engano meu, que no olho do furacão reina a calmaria.
Na periferia do furacão, melhor dizendo.
Esta sede desenfreada de velocidade, amigos. 
Esta alucinada vontade de potência a gente pode notar já
em Moitessier
em Tabarly 
 mais ainda em Alain Colas
 muito mais ainda em Phillippe Jeantot.
Mas acho que os "tubarões esfomeados" + os "cações agressivos" + um certo "peixinho", da atual Vendée Globe, estão indo longe demais em sua busca do inenarrável prazer, que só o excesso de velocidade a bordo de um veleiro hightech, navegando na mar pode oferecer.
Só quero ver em qual bicho essa loucura vai dar. 
A primeira questão é:
Até que ponto o material resistirá a tão monstruosos e milhares de vezes repetidos esforços?
A segunda questão é:
Até que ponto o físico e a mente desses superexcitados macróbios humanos suportará essas diuturnas e desmesuradas solicitações?
A terceira questão é:
Será lícito transformar o esporte em sessão coletiva de consumo da droga mais alucinógena do mundo, a adrenalina.
A propósito o cerra-fila deste desvairado pelotão de frente, autor de uma bela corrida de recuperação, bateu ontem ao fim de uma longa surfada, o recorde de velocidade no mar: exatos 30.44 nós.  
Estamos falando, é óbvio, de Michel "Foncia" Desjoyeaux, ou se preferirem, do "Professor".
Quando eu digo a vocês que a Vendée Globe merece no mínimo umas dez páginas do Livro das Mil e Uma Noites.
A propósito, selecionei mais um extrato, desse livro sem igual, especialmente pra vocês. 
"Prosseguimos a viagem e o barco avançou, beneficiado por bons ventos, durante cinqüenta dias, ao cabo dos quais chegamos a uma..."
48ª noite

Grande abraço amigas e amigas da Copa Pé de Vento 
e até amanhã se Netuna quiser

Fernando "Estrela d'Alva" Costa

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