sábado, 30 de julho de 2016

"Canoas, Ventos e Mares", livro de poemas de Laerte Tavares





- Bom dia amigas e amigos leitores deste oceânico blog.

- Graças a dois comentários da Sandra Tavares voltei a pensar profundamente sobre esse genial marujo-poeta que foi Luiz Vaz de Camões e também tive o prazer de conhecer o poeta  catarinense Laerte Tavares que enviou-nos uma
mensagem, da qual selecionei o extrato abaixo pra nós lermos juntos.

"Vou deixar aqui no corpo do e-mail uma décima que não é bem décima do comentado Capitão de Longo Curso, João Leite, de minha terra, que quando tomava uma cachaça no boteco a declamava para saudar a caninha e os amigos a quem a oferecia, erguendo o copo e dizendo que neste casco altaneiro, que era o copo, nunca que alguém naufragou: 

O marinheiro no mar,
Por bom que o tempo pareça,
É bom que nunca se esqueça
Que o tempo pode mudar.
Noite de cerração fechada
Pela proa me pegou.
Com a bitácula apagada
Nunca que alguém navegou.
Vergas, enxárcias, velas, mastro,
Tudo no convés de rastro,
Tudo no mar afundou,
Mas nesse casco altaneiro,


Nunca que alguém naufragou. E com licença: está servido, a um trago, amigo?… Está servido? Está servido?"

- Sobre esse mesmo assunto leiam meu post anterior.

- Se gostarem de poesia que fale de MAR, BARCOS e NAVEGANTES, visitem o blog do Laerte Tavares que já publicou pelo menos três livros a respeito: "As Armas e Alma do Poeta", "Canoas, Ventos e Mares" e "Ilha de Idílios"

http://silolirico.blogspot.com.br/

- Ah... O assunto lhe interessa amiga leitora?

- Então leia mais, leia mais, leia que ler alimenta o espírito.

- Quem disse que só o corpo precisa de alimento?

Fernando Costa

 "CANOAS, VENTOS E MARES"

“Canoas, ventos e Mares” que consta no livro de mesmo nome é um poema narrativo em décimas (dez versos por estrofe) do cancioneiro ibero-português do séc. XVI com sessenta e nove estrofes, cujo estilo literário foi muito usado por Camões. O poema conta a saga de um velho capitão de longo curso de barco à vela a ensinar dois garotos a arte de marinharia em uma pequena canoa motorizada. Numa das pescarias foram surpreendidos, em alto-mar, por uma terrível trovoada, perdendo todos os apetrechos da canoa, inclusive o leme. Frente a prostração do velho marinheiro pelo cansaço da luta titânica em enfrentar a tribuzana, um dos garotos se fez de patrão, e com a ajuda do irmão mais novo  conseguiu trazer a embarcação, de motor enguiçado, ao porto, com uma das bordaduras rompidas, munidos apenas de um remo de voga a orçar, por leme, e por propulsão, uma vela pequena colocada na proa, navegando em ziguezague, na aragem mansa, logo que o vento abrandou.

O mar fica esbranquiçado,

O vento sopra ganindo
E aquele dia tão lindo,
Já pertencia ao passado.
O tempo mudou o fado
E agora é de se enfrentar
O vento e a fúria do mar
“Com Deus e a Virgem Maria.”
“Por boreste, ventania!”
“Não vou dar sorte ao azar!” (p. 22)


Na hora do vagalhão

Seu João quase se afoga.
Peguei o remo de voga
E orcei a embarcação.
Coitado do capitão,
Já era um homem de idade,
E eu, na minha mocidade,
Não podia fraquejar.
Jurei de enfrentar o mar,
Dada a tal necessidade. (p.26)


“Como Ir à Deriva à Noruega” é também um poema narrativo em décimas, com trinta e quatro estrofes do mesmo livro: Canoas, Ventos e Mares. Este, apresenta a história de um pescador catarinense na tal pesca do mar novo, época de 1950, quando barcos portugueses pescavam na costa do Rio de Janeiro numa modalidade em que deixavam vários pescadores individuais em caíques à deriva, a pescar de linha, recolhendo-os no final da tarde. Em certo dia de vento oeste um dos pescadores não foi encontrado, dado o vento tê-lo arrastado demais ao meio do oceano, ficando perdido em alto-mar por vários dias, e sendo encontrado por navio norueguês em travessia oceânica, que comunicou via telegrafo às autoridades marítimas brasileiras e o levou à Noruega, devolvendo-o ao Brasil depois dois meses e pouco por navio que tinha o destino do Rio.     


O Toninho narrou tudo 

Quando chegou na Armação. 
Contou detalhes, então. 
Contou o que houve, em miúdo, 
De vento brando e agudo... 
Sensações de vida e morte... 
E que não morreu por sorte. 
Falou da luta, da esfrega, 
E que foi à Noruega, 
Pertinho do Polo Norte. (p. 64)

E na primeira viagem 

Tive aquele desacerto, 
Assim, fiquei num aperto, 
Sem noção de salvatagem. 
O vento que era uma aragem 
Se tornou num furacão 
E eu com pouca noção, 
Pensei que iria morrer. 
Deixei o bote correr 
“À rola e a trambolhão”. (p. 67)

Depois na calma do vento, 

(Tinha “brisado” dois dias, 
Só deu duas calmarias), 
Pensei no meu alimento, 
Achando que o suprimento 
Estava já bem no fim. 
Meu Deus, que será de mim? 
Já no meio do oceano... 
Não tenho poder humano 
Pra voltar de onde vim. (p. 67)


Depois do sétimo dia, 

Não contava o tempo mais. 
Noite e dia eram iguais 
Àquela monotonia 
Dolorosa que eu sentia. 
Dormia ao doce balanço 
Do mar com ventinho manso.
E como ingênua criança, 
Ainda tinha esperança 

De ser achado. Ah, que tanso!... (p. 69)


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